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  • Foto do escritorRenata Torres

Ninguém passa ileso pela COVID-19


Imagem mostrando a foto de uma mulher negra usando máscara e a frase Ninguém passa ileso pela Covid-19. Use máscara, por favor! no canto inferior esquerdo, em branco, o logo da Div.A
Imagem mostrando a foto de uma mulher negra usando máscara e a frase Ninguém passa ileso pela Covid-19. Use máscara, por favor! no canto inferior esquerdo, em branco, o logo da Div.A

371 dias. Foi o que demorou para eu ser infectada pelo coronavírus e apresentar sintomas de Covid-19, desde que eu passei a fazer isolamento social, em março de 2020. Durante todo esse tempo, meus dias vinham sendo preenchidos com muita restrição de contato com pessoas, deixei de ir a todos os lugares, com exceção de supermercado uma vez por semana e levar minha cachorra para passear de manhã cedo. De resto, em casa direto, sem receber ninguém. Mas de vez em quando me pegava pensando: até quando passarei ilesa por esse pesadelo que estamos vivendo em nosso país? Quanto tempo mais resistirei ao contágio? Afinal, meu marido estava indo ao escritório de uma a duas vezes por semana. Algumas vezes usando transporte público. Moramos em Niterói, na região metropolitana do Rio, isso significa um bom tempo entre ônibus e barca até ele chegar ao trabalho. Era questão de tempo.


Em 19 de abril ele começou com sintomas e quatro dias depois foi a minha vez. Felizmente, não tivemos grandes complicações e estamos conseguindo passar pela doença sem precisar ir a um hospital. Ainda assim, é uma doença difícil, debilitante ao extremo, e de certa forma, aterrorizante.


Tosse, febre, dor no corpo, um cansaço imenso, um incômodo no peito, enjoo e finalmente, perda de olfato e paladar. Não ter força para fazer as mais simples atividades domésticas é um indicativo de que o vírus está ali, te roubando o oxigênio necessário para dar energia ao seu corpo. Mas não sentir cheiro e nem gosto do alimento, para mim foi o mais difícil. Comer por sentir que precisa.


Minha relação com a comida é de afeto, um dos meus maiores prazeres é cozinhar e comer. Sentir apenas a textura e a temperatura do que estamos comendo e bebendo é das sensações mais estranhas e frustrantes que eu já experimentei. Ao mesmo tempo nos conecta com o nosso instinto de sobrevivência, de saber que, independente dos sentidos, precisamos daquilo para nutrir o corpo e ajudar a acalmar a mente, que muitas vezes, se pega pensando que a cada dia que passa existe a possibilidade de melhora, mas também a possibilidade de agravamento da doença, e ficamos torcendo para passar logo do 10o dia, período em que pode acontecer uma piora do quadro.


Eu e meu marido ficamos doentes juntos, com um intervalo de 4 dias, o que me deu a chance de suportá-lo nos piores momentos da doença dele e ter o seu suporte durante os piores momentos da minha doença. É um pouco mórbido falar disso, mas o fato é que faz toda a diferença passar pela Covid-19 com condições adequadas, com ajuda e apoio. E é aí que eu gostaria de chegar.


Durante esses dias, pensei muito nos meus privilégios. O de morar em uma casa com espaço adequado. De ter acesso a uma alimentação saudável para ajudar na recuperação. De ter suporte médico à disposição e apoio familiar e de amigos próximos para nos ajudar a passar por esse momento.


Fico pensando nas pessoas que moram sozinhas e não têm como pedir ajuda ou ter apoio de alguém num momento tão difícil. Pessoas que possuem familiares longe e não podem colocar em risco os mais velhos ou os que têm algum tipo de comorbidade. Pessoas que simplesmente não têm mesmo a quem recorrer.


Penso também nas pessoas que, apesar de não estarem com a doença, possuem familiares que estão, seja em casa ou no hospital. O medo, a angústia, a dor da perda. A compreensível falta de condições de se concentrar em nada mais além da preocupação com o que estão passando. Mas precisam encontrar forças para continuar suas tarefas, cumprir com suas responsabilidades do trabalho, mesmo estando completamente absorvidas por um estado constante de apreensão.


Uma recente pesquisa realizada pela Paychex, empresa que atua na área de Recursos Humanos, com mais de 1000 pessoas, reportou não só que a saúde mental dos colaboradores sofreu grande degradação durante a pandemia como também mais da metade das pessoas que responderam à pesquisa (54%) têm medo de discutir a questão com seus líderes. 30% acreditavam que discutir esse tema poderia causar sua demissão e 29% achavam que poderiam ter impactos em sua promoção. No link, abaixo você pode ter mais informações sobre a pesquisa.



Lendo isso me pergunto: o que você, que tem um papel de liderança, sente sabendo que existe uma grande probabilidade de ter alguém do seu time passando justamente por esse problema? Sabe aquelas pessoas que acordam e passam o dia interagindo com você, que estão dando o melhor de si para que os objetivos que vocês têm possam ser atingidos e que vão te ajudar a ter o reconhecimento pelo trabalho realizado, pelas conquistas que pretende alcançar?


Quantas vezes você tem parado ao longo do dia para apenas perguntar, individualmente, para as pessoas do seu time – como você está? Não para perguntar sobre as tarefas, sobre os prazos, sobre os problemas do trabalho. Sobre como elas estão! Sobre como estão suas famílias. Se está precisando de algum apoio, se precisam de um dia de folga, se precisam desabafar, compartilhar suas angústias, suas preocupações... Mesmo correndo o risco de ouvir nada de volta. O que importa é se colocar à disposição para ouvir, de demonstrar uma preocupação genuína com a pessoa, de mostrar que você está ali para muito além de uma conversa burocrática, formal e protocolar.


Vivemos tempos de muita dor, de muitas coisas erradas em nosso país, de muita falta de empatia, solidariedade, consciência do papel que líderes têm na vida das pessoas que lideram. A busca por essa consciência deve ser constante por parte de todas as pessoas, independente do cargo que ocupam. Mas aqueles que estão em uma posição de liderança, têm sim a obrigação de entender que nossa humanidade nos permite sermos frágeis e buscarmos ajuda, nos permite estender a mão e acolher aqueles que estão ao nosso lado na batalha diária. Que o simples fato de perguntar “Como você está?” pode fazer uma grande diferença em um dia triste.


Um dia como o de hoje, em que o Brasil acorda mais triste com a perda de mais de 400 mil pessoas para uma doença cuja vacina já está disponível. Uma dessas perdas, a do ator Paulo Gustavo, gera a comoção de todo um país, porque representa a perda de um país livre, criativo, corajoso, autêntico, humano, solidário e que morre sufocado por tanta maldade e ignorância.


Que possamos ter consciência do papel que cada um de nós tem perante os que estão em nossa volta. E que possamos no guiar por um pensamento de Carl Jung, do qual gosto muito:

Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.


Foto de Renata Torres e Kaká Rodrigues, co-founders da Div.A, sorrindo. Ao lado direito o texto diz: "Queremos trazer mais equidade e justiça social para o mundo" e abaixo a borboleta que é a marca da Div.A - Diversidade Agora!
Foto de Renata Torres e Kaká Rodrigues, co-founders da Div.A, sorrindo. Ao lado direito o texto diz: "Queremos trazer mais equidade e justiça social para o mundo" e abaixo a borboleta que é a marca da Div.A - Diversidade Agora!




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