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  • Foto do escritorRenata Torres

#29M e a vulnerabilidade em se posicionar


No último sábado, dia 29 de maio, aconteceram protestos por todo o Brasil, e até mesmo no exterior, contra o governo de Jair Bolsonaro. Conforme publicado pelo jornal Folha de São Paulo, os organizadores estimam que ao todo as manifestações ocorreram em pelo menos 213 cidades brasileiras e 14 cidades no exterior, num total de aproximadamente 420 mil pessoas.


Ao saber pelas redes sociais que este evento aconteceria, me peguei num diálogo interno muito intenso, já que ir para as ruas para protestar em plena pandemia não parece ser razoável. Ao mesmo tempo, como fazer para comunicar de forma efetiva a indignação com tanto descaso com as vidas brasileiras? Já há algum tempo que protestar pela Internet me parecia ser exatamente o que dá ao governo o benefício de postergar por tanto tempo o acesso à vacina para todas as pessoas do país.


Comecei então a tentar identificar as principais razões que estavam me atrapalhando a decidir de forma mais rápida a ir ou não:

· medo da exposição ao vírus: já tive COVID-19, mas sabemos que isso não é garantia de não contrair novamente a doença e, pior, de mesmo assintomático, transmitir o vírus para outras pessoas;

· medo do julgamento: não tenho e nunca tive problemas em expressar minhas posições políticas, o medo aqui é pelo julgamento por estar em uma situação de possível aglomeração em plena pandemia, postura já criticada por mim em relação à outras pessoas;

· medo da exclusão: a cultura do cancelamento que impera na era das mídias sociais adora um motivo qualquer para apontar o dedo e excluir aqueles que de alguma forma pensam e agem de maneira contrária ao que pensamos ser o certo.


Por outro lado, não ir significaria não cumprir meu dever cívico e moral de me posicionar contra a decisão consciente de um governo que escolheu 11 vezes não comprar vacina para livrar o povo de um vírus que já matou 460 mil brasileiros. Não ir significaria continuar protestando de forma confortável por trás de um computador, sem que isso gerasse de fato um impacto de mudança. Não ir significaria abafar a demonstração concreta das minhas posições contra o preconceito, contra a destruição do meio-ambiente, contra a destruição da educação, contra a morte. Não ir significaria não poder me manifestar a favor das diversidades, da natureza, da ciência e do conhecimento, a favor da vida.



Bom, vocês já entenderam qual foi a decisão não é 😉? Acolher minha vulnerabilidade em sentir medo de me expor e ser julgada e transformá-la em coragem para demonstrar tudo aquilo em que eu acredito foi o que, depois de 1 ano e 3 meses de isolamento social, me permitiu ir para as ruas do Rio de Janeiro e poder testemunhar um dia histórico. Um dia em que milhares de pessoas saíram com suas máscaras (de verdade, não vi ninguém sem elas!), com muito cuidado em não estar tão próximo um do outro. E me senti viva e feliz de ver que quando as pessoas se unem por um propósito comum elas se fortalecem para alcançar seus objetivos.


Essa reflexão me fez pensar sobre como alguns times conseguem, a partir de um contexto de segurança psicológica, atingir resultados maiores e de forma mais consistente do que outros. Sobre como algumas lideranças conseguem estabelecer relações de confiança entre as pessoas de seus times, para que elas se sintam seguras para expressar suas ideias e posições sem medo de serem julgadas no nível pessoal. O julgamento e debate de ideias é saudável. O que não é saudável é o julgamento das pessoas que têm as ideias.


Ao mesmo tempo, penso o quanto é desafiador permanecer em times onde não existe o espaço para o contraditório, para a livre expressão de quem se é, e onde o comando e o controle imperam o tempo todo.


Você já se pegou, dentro do seu contexto de trabalho, em uma posição de querer se posicionar contra alguma situação, dar uma opinião diferente do que a liderança ou a maioria dos colegas têm ou ir contra o que “se espera” que você faça? Fico imaginando alguns dos jornalistas dos principais veículos de comunicação do país, impedidos de publicar um dos maiores acontecimentos do ano, porque noticiar as manifestações contra o governo de Bolsonaro vai contra os interesses do jornal. Da mesma forma, times inteiros muitas vezes são calados e impedidos de manifestar a real situação que se vive na equipe, porque isso iria contra os interesses do chefe. A boa notícia é que esse tipo de cultura, a cultura do medo, vem perdendo espaço para a cultura da segurança psicológica.

As organizações já perceberam que investir na criação de uma cultura de segurança psicológica é investir na sustentabilidade do negócio.

Mas para isso é fundamental que as lideranças embarquem nesta jornada e entendam que segurança psicológica não é tarefa apenas da área de Recursos Humanos. É um desafio que depende de ações coletivas, impulsionadas por líderes que premiam a vulnerabilidade, a diversidade de pessoas e de ideias e enxergam o erro no processo de aprendizagem como uma forma de crescimento e não como um problema a ser superado.

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