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  • Foto do escritorRenata Torres

A influência da experiência de vida na formação do perfil de liderança


Imagem de vários bonecos brancos e um vermelho de mãoos dadas em círculo.

Durante o tempo que atuei em posições de liderança executiva, tive a oportunidade de liderar os mais variados times, de todos os tamanhos e composições. Alguns pequenos, enxutos e estabelecidos com o propósito de atuar por pouco tempo em projetos de consultoria estratégica. Outros bem maiores, perenes, diversos em termos de gênero, raça, orientação sexual, idade... Tive a honra de vivenciar de perto os resultados trazidos pela inclusão da diversidade em um time: conexão, confiança, inovação, colaboração e resultados de negócio.


Ao comunicar minha decisão de mudar de foco de carreira, quando me afastei do mundo da tecnologia para empreender na área de Diversidade, Equidade e Inclusão, a reação das pessoas do meu último time, formado por aproximadamente 300 colaboradores, variou entre o espanto inicial, a demonstração da surpresa e o desconforto com a notícia, seguidos pelo acolhimento e o entendimento da motivação que estava por trás da decisão.


Essas reações já eram esperadas, afinal trabalhar com DE&I era algo que faria todo sentido para mim e o meu envolvimento com o tema não era novidade para quem trabalhava comigo. O que eu não esperava foram os depoimentos recebidos a respeito do impacto que causei naquele time e como o meu estilo de liderança próximo, humano e conectado fez a diferença para transformar a carreira de muitas daquelas pessoas.

Mas, afinal, o que é uma liderança conectada? Se liderança é uma habilidade que pode ser adquirida e treinada como muitos pregam, por que temos líderes mais efetivos do que outros? Como as nossas experiências de vida podem influenciar as nossas atitudes enquanto líderes?


Liderança conectada por definição é aquela que é exercida de forma conjunta, interligada com todas as pessoas que formam o time. É uma liderança aberta, receptiva, doadora, alinhada com o outro, com potencial de compartilhamento e capacidade de comunicação. E nesse sentido parece um pouco óbvio que algumas escolhas devam ser feitas por aquelas pessoas que ocupam posições de liderança: quero ser uma liderança conectada ou desconectada, aberta ou fechada, habilitadora ou controladora?


Mas como identificar uma liderança conectada na prática? Quais são os comportamentos ou atitudes que o líder conectado apresenta? O Dr. Simon Hayward, CEO da Cirrus e autor do livro Connected Leadership: How to Build a More Agile, Customer-Driven Business listou alguns exemplos para tangibilizar um pouco como uma liderança conectada atua em seu dia a dia:

  1. Dedica tempo para realização de coaching e mentoria de seus colaboradores;

  2. Encoraja a discordância construtiva, aquela em que ideias podem ser julgadas, não as pessoas;

  3. Conhece suas forças e seus pontos de desenvolvimento;

  4. Atua como exemplo dos valores que são associados ao time e da busca constante por aprendizado;

  5. Exercita a vulnerabilidade, tem humildade;

  6. É extensivamente conectado com o mundo exterior, tem um repertório que vai além das questões técnicas da atuação do time e utiliza esse repertório com o time;

  7. Foca nas perguntas certas ao invés de nas respostas certas, o não saber é permitido à liderança;

  8. 8Tem um profundo senso de ética.

Eu poderia enumerar outras atitudes, mas acredito que essas resumem bem os comportamentos que demonstram a congruência de uma liderança com seu papel de ajudar a criar ambientes com segurança psicológica. Ambientes onde os membros do time se sentem seguros para expressarem suas ideias, para errarem no processo de aprendizagem, para terem liberdade de serem quem são e de terem confiança uns nos outros. Pois sabem que têm o apoio da liderança em todas essas questões.


E ao exercer este tipo de liderança, o líder ou a líder renuncia ao estilo de comando e controle e adota a liderança por influência.


framework de liderança

O Dr. Simon Hayward, desenvolveu um framework em sua pesquisa em Leadership, que chamou dos 5 pilares da liderança conectada:


1. Propósito e direção: criação de crença em senso de propósito e visão compartilhada;


2. Autenticidade: atuação com integridade para ganhar confiança;


3. Tomada de decisão descentralizada: compartilhamento de poder. Envolver os membros do time e encorajá-los a tomar responsabilidade;


4. Colaboração: compartilhamento de conhecimento, busca por ideias e encorajamento de cooperação;


5. Agilidade: estado constante de aprendizado para encorajamento de inovação.


Se nos aprofundarmos em cada um desses pilares vamos encontrar o racional para se exercer uma liderança conectada que propicia, entre outras coisas, mais engajamento, mais inovação e mais resultados a um time. Só que isso não é uma receita de bolo.


Conhecer técnicas e pesquisas científicas que embasam os conceitos do que é ser uma liderança conectada é importantíssimo, mas tem um aspecto crítico nesse jogo que exerce uma influência enorme na forma como a teoria será aplicada: as características pessoais de quem exerce a liderança. A bagagem que essa pessoa carrega em termos de experiências de vida, valores, crenças pessoais e traços de personalidade também são peças fundamentais na hora de colocar em prática aquilo que pode ser ensinado.


Uma pessoa com tendências autoritárias, terá grande dificuldade em compartilhar o poder e a tomada de decisão, por exemplo. Uma pessoa que não confia em ninguém terá grande dificuldade em delegar responsabilidades e estabelecer um ambiente de confiança dentro do time.


Não estou afirmando que pessoas com essas características não possam ser líderes conectados, claro que podem! Terão que saber controlar essas características para que elas não interfiram negativamente na forma como exercem sua liderança.


Por outro lado, uma pessoa que foi exposta a situações de convívio saudável com pessoas representadas por diferentes camadas de diversidade, desenvolverá com mais facilidade os comportamentos de liderança conectada descritos acima.


Na entrevista do canal da Div.A Diversidade Agora! do YouTube desta semana, que será publicada amanhã, dia 17/06, conversamos com Theo van der Loo, ex CEO da Bayer no Brasil, homem branco, consciente de seus privilégios e que é pioneiro na luta por equidade racial dentro do mercado corporativo. Theo, filho de holandeses, foi exposto a valores familiares moldados através da experiência de vida de um pai que foi escravizado na Tailândia e mãe empreendedora que não se adequava ao perfil da mulher de meados do século passado. Saber o que faz a intolerância e o preconceito com certeza deu a Theo algumas das ferramentas necessárias para exercer uma liderança que de forma consciente valoriza o diferente e que busca de forma justa oferecer oportunidades para todas as pessoas, independente de raça, gênero, orientação sexual e outras expressões de diversidade.


Recentemente tive a oportunidade de me reconectar com acontecimentos da minha vida com os quais eu não tinha contato há algum tempo. Foi preparando uma palestra que eu faria para meninas do ensino médio, contando sobre minha jornada do mundo da tecnologia, que eu entendi que algumas das experiências que vivi ainda na minha época de faculdade, podem ter me dado ferramentas parecidas com as do Theo.


Sendo de uma cidade pequena do interior do Estado do RJ, me mudei para a cidade do Rio de Janeiro para fazer faculdade e morei durante alguns anos em um pensionato para meninas. Moças que eram de outras cidades e estados e que vinham para o Rio para estudar. Conheci e convivi com pessoas das mais diferentes origens, até de outros países da América Latina, como Peru e Venezuela. Mulheres do Norte e Nordeste do Brasil, mulheres de origem muito humilde, outras nem tanto, mulheres brancas e negras... Todas convivendo em um espaço comunitário, onde se dividia o quarto, o único telefone de ficha (sou velha!), o aparelho de TV (não podíamos ter TV no quarto), uma fase da vida muito intensa de emoções. No nosso caso, intensa de desafios também. Todas longe de suas famílias e amigos mais próximos. Mas com o mesmo objetivo: estudar para ter uma vida melhor.


Ter passado por essa experiência me preparou de um jeito que apenas hoje eu consigo entender. Moldou traços da minha liderança que conseguem enxergar o valor que é ter pessoas diferentes de mim ao meu lado. Acredito que seja através desta complementariedade que é possível para um time alcançar seus objetivos de forma saudável para todas as pessoas e para as organizações das quais ele faz parte.


Organizações que valorizam a diversidade, a equidade e a inclusão colaboram para a transformação da sociedade como um todo e podem funcionar como espaços de aprendizado e transformação para aquelas pessoas que durante suas vidas não tiveram uma educação consciente para esses valores. E é por isso que uma liderança conectada traz tanto impacto positivo, não só para a carreira, como também para a vida das pessoas que convivem com ela e consequentemente para toda a sociedade.

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