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  • Foto do escritorRenata Torres

A mulher do fim do mundo


Quando pensamos sobre as pautas que traríamos para nosso conteúdo do mês de Julho, decidimos dedicá-lo a temas relacionados à mulheres negras, em alusão ao Julho das Pretas, já que em 25 de Julho comemora-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha.


Para o artigo dessa semana o tema seria a importância da participação de mulheres negras no samba e faríamos uma viagem no tempo para contar como essa participação evoluiu desde os primórdios com Tia Ciata, passando por Dona Ivone Lara e chegando até os dias de hoje, em Teresa Cristina. Sempre considerando que o samba, como qualquer espaço de manifestação cultural, é também um espaço de resistência. E sendo um espaço majoritariamente ocupado por homens, não precisa nem dizer o quanto de resistência essas mulheres oferecem e enfrentam para ocupar um lugar que também pode ser delas.

Mas... como falar de mulher preta no samba sem falar de Elza Soares? E aí o que era para ser uma parte do artigo virou praticamente o artigo inteiro. Porque a Elza é assim, ocupa todos os espaços. Faz todas as coisas. Fala sobre tudo e já cantou todos os sambas. Mas não só samba.


É uma das vozes mais inovadoras da nossa música. Mesmo tendo mais de 80 anos (a idade certinha é um segredo) ela transita por todos os estilos e desafia as mentes dos mais jovens compositores. Foi assim no projeto do álbum A mulher do fim do mundo, onde se reuniu em 2015 com nomes jovens do cenário da música de SP para criar um disco de inéditas. E a letra da música que dá nome ao álbum, apesar de não ser especificamente relacionada à vida da Elza, poderia muito bem ser.


Usando o Carnaval como metáfora da vida, ela retrata a vida de muitas mulheres pretas, suas histórias de superação e luta, muitas sobrevivendo de forma solitária, mas que mesmo no final do mundo (ou da vida) mantém a força e a determinação, através do seu canto. É demais da conta!


Deixo a letra aqui para ver se você vai ou não concordar comigo:

Meu choro não é nada além de carnaval

É lágrima de samba na ponta dos pés

A multidão avança como vendaval

Me joga na avenida que não sei qualé

Pirata e Super Homem cantam o calor

Um peixe amarelo beija minha mão

As asas de um anjo soltas pelo chão

Na chuva de confetes deixo a minha dor

Na avenida deixei lá

A pele preta e a minha voz

Na avenida deixei lá

A minha fala, minha opinião

A minha casa, minha solidão

Joguei do alto do terceiro andar

Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida

Na avenida dura até o fim

Mulher do fim do mundo

Eu sou e vou até o fim cantar

Agora, potente mesmo é o vídeo oficial da música, disponível neste link do YouTube, é de tirar qualquer um do prumo, tamanha a vitalidade e potência que Elza demonstra em sua interpretação, ao lado de outras mulheres pretas que mostram as diversas fases da vida da Mulher do Fim do Mundo:


Lembro que quando ganhei este disco de presente do meu irmão, demorei um pouco para ouvir. Mas depois que ouvi pela primeira vez foi difícil parar. Além da música título, o álbum conta também com músicas que falam, por exemplo, sobre violência doméstica (“Maria da Vila Matilde”) e transexualidade e dependência química (“Benedita”).



Portanto, no artigo de Julho das Pretas desta semana, fica a nossa homenagem a essa mulher que aos 13 anos já era casada, aos 15 já tinha perdido dois filhos. Viúva ainda muito nova, criou sozinha 5 filhos e trabalhava como empregada doméstica, antes de realizar o sonho de ser cantora. Foi casada com Garrincha, e por algum tempo era conhecida por isso. Imagina se Elza era mulher de alguém! Elza é de Elza, do mundo! Em 1999 foi considerada pela rádio BBC de Londres a cantora brasileira do milênio. Sofreu violência doméstica, quis se matar quando perdeu seu único filho com Garrincha. E mesmo depois de tantos desafios, tanto sofrimento, Elza continua sendo capaz de renascer cada vez mais potente, sempre inovando e arrebatando com sua resistência e sua voz. Para terminar, nada melhor do que saber nas palavras de Elza, quem é a mulher do fim do mundo:


Nunca tive medo de defender aquilo que acredito. Porque é isso que é ser mulher: defender o que pensa. Acho que a mulher do fim do mundo é a mulher que tem alma.

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