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Além do 8 de Março: Celebrando a Diversidade e as Lutas das Mulheres Cis e Trans


quatro mulheres (cis,  trans e travestir) sorrindo

Março é amplamente reconhecido como o mês da mulher. Marcado pelo dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher, o mês de março é um momento em que afloram as reflexões sobre as conquistas históricas das mulheres e seus desafios contínuos na busca por igualdade. Além disso, no dia 31 deste mesmo mês celebramos o Dia Internacional da Visibilidade Trans, destacando as experiências e desafios únicos enfrentados pelas pessoas trans. Isso ressalta a importância de reconhecer e valorizar a diversidade de identidades de gênero durante este período significativo. Mas afinal, o que estas duas celebrações têm em comum?  


Neste artigo, iremos explorar as conquistas e desafios enfrentados pelas mulheres cis, heterossexuais e conformes aos padrões de beleza tradicionais, e daremos destaque às experiências e lutas das mulheres trans. Ao cruzar essas pautas, buscamos promover um diálogo inclusivo e interseccional sobre igualdade de gênero e diversidade, reconhecendo a importância de considerar todas as vozes e experiências na busca por uma sociedade mais justa e igualitária para todas as pessoas. 

 

Na busca pela igualdade de gênero, é essencial considerar o conceito de mulheridade e como ele se aplica às diversas experiências das mulheres. Mulheridade refere-se à experiência e identidade de ser mulher, mas também reconhece a diversidade e complexidade das vivências femininas. Este conceito vai além da biologia e inclui as construções sociais, culturais e individuais que moldam as experiências das mulheres. Mulheres negras, indígenas, lésbicas, com deficiência, trans e travestis têm suas próprias vivências de mulheridade, moldadas pelas interseccionalidades de gênero, raça, orientação sexual e outras identidades. 


É necessário reconhecer que essas diferentes experiências de mulheridade influenciam os desafios enfrentados por cada grupo de mulheres. Por exemplo, mulheres trans enfrentam obstáculos específicos no acesso ao mercado de trabalho e à participação política, enquanto mulheres negras enfrentam desafios adicionais decorrentes da interseção de gênero e raça, como o racismo estrutural, institucional e a discriminação racial. 


Neste contexto, torna-se incontestável a importância de adotarmos uma abordagem feminista interseccional, que reconheça e valorize a diversidade de experiências e identidades das mulheres. Um feminismo interseccional amplia nossa compreensão sobre o que significa ser mulher, e nos capacita a promover uma luta mais inclusiva e abrangente pela igualdade de gênero. 


Apesar dos marcos significativos, como a criação da primeira delegacia de defesa da mulher em 1985 e a promulgação da Lei Maria da Penha em 2006, desafios persistentes confrontam as mulheres. A desigualdade salarial, o preconceito de gênero e a escassa representatividade feminina na política são exemplos claros dessas barreiras, evidenciando a necessidade de promover a diversidade. 


Embora representem 51,1% da população brasileira, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) 2021, as mulheres enfrentam desafios significativos que evidenciam a desigualdade de gênero no Brasil, conforme apontado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 


Os números do documento "Estatísticas de Gênero" do IBGE de 2019 revelam uma disparidade marcante: enquanto as mulheres possuem uma taxa de participação na força de trabalho de 54,5%, os homens ostentam um índice consideravelmente superior, alcançando 73,4%. Essa diferença expressiva ressalta a urgência de eliminar as barreiras que limitam a plena participação feminina no mercado de trabalho, consolidando a necessidade de ações concretas em prol da igualdade de oportunidades. 


Além das desigualdades evidenciadas no cenário brasileiro, dados da ONU adicionam uma perspectiva global à discussão. A pesquisa revela que em 57 países, quase metade das mulheres enfrentam restrições em decisões cruciais sobre seus próprios corpos. Atualmente, em 69 nações ao redor do globo, a prática de relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo é considerada ilegal. Essas legislações restringem a autonomia de cerca de 300 milhões de pessoas pertencentes à comunidade LGBTQIAPN+. Essa realidade global destaca a amplitude do desafio enfrentado pelas mulheres na busca por autonomia e igualdade, transcendendo fronteiras e reforçando a necessidade de medidas efetivas para promover a liberdade de escolha e autonomia feminina em todo o mundo. 


Em termos políticos, mesmo representando a maioria do eleitorado brasileiro (53%), as mulheres são drasticamente sub-representadas nas instituições legislativas. Dados alarmantes demonstram que apenas 17,28% das cadeiras no Senado Federal e 17,7% na Câmara dos Deputados são ocupadas por mulheres. Essa desigualdade na representação política destaca a necessidade urgente de iniciativas que promovam a participação ativa e igualitária das mulheres nos processos decisórios, garantindo a diversidade de perspectivas e uma representação verdadeiramente democrática. 

 

Desafios para as Mulheres Trans 

A participação das mulheres trans na sociedade, especialmente no mercado de trabalho e em posições de liderança, reflete desafios e disparidades significativas. No cenário do mercado de trabalho formal, as mulheres trans e travestis encontram obstáculos consideráveis no acesso à qualificação e oportunidades, impactando diretamente suas trajetórias profissionais. 


Dados recentes de uma pesquisa realizada em 2021 no estado de São Paulo revelam que 90% das mulheres trans e travestis entrevistadas se declaram profissionais do sexo, sendo esta a sua ocupação principal. Em outras atividades, o trabalho informal ou independente é mais comum, evidenciando a falta de oportunidades equitativas e a necessidade de intervenções efetivas. 


A falta de formação técnica específica é outro desafio destacado, com apenas 42% das mulheres trans possuindo habilidades técnicas formais. Esse déficit de formação contribui para a persistência de barreiras no acesso a empregos qualificados e oportunidades de crescimento profissional. 


No tocante à participação em cargos de liderança, a representatividade das mulheres trans ainda é limitada, sendo dificultada pela combinação de preconceito e falta de oportunidades equitativas no mercado formal. A instabilidade no sustento é uma realidade para muitas mulheres trans e travestis, com a maioria exercendo atividades informais ou liberais sem contrato formal, agravando a vulnerabilidade financeira dessa população. 


Não surpreendentemente, esta pesquisa revelou que os homens trans têm uma presença mais significativa em empregos formais com carteira assinada em comparação com as mulheres trans. Essa disparidade de oportunidades destaca o impacto da dupla opressão do machismo e da LGBTQIA+fobia, trazendo a consciência da importância de ações que promovam a inclusão, considerando as especificidades e desafios enfrentados pelas mulheres trans no ambiente de trabalho. 


Além disso, é crítico mencionar que o Brasil figura no topo do ranking dos países que mais registram assassinatos de pessoas trans no mundo. Essa triste realidade sublinha a relevância imediata de enfrentar a violência sistêmica e criar um ambiente mais seguro e inclusivo para a comunidade trans no país. 


Esses dados evidenciam a necessidade inequívoca de políticas e ações que promovam a inclusão e a equidade para as mulheres trans no mercado de trabalho e em posições de liderança. O acesso à educação e qualificação profissional, a redução do preconceito/discriminação e a criação de oportunidades igualitárias são fundamentais para garantir uma participação justa e representativa das mulheres trans na sociedade. 

 

 

Conclusão 

Embora tenhamos testemunhado avanços notáveis, a jornada em direção à igualdade de gênero e diversidade continua desafiadora. É imprescindível reconhecer e enfrentar as persistentes desigualdades, especialmente ao considerar as diversas realidades e demandas dos grupos específicos, incluindo as mulheres trans que enfrentam obstáculos significativos no acesso ao mercado de trabalho, à participação política e à segurança pessoal. Essas disparidades destacam a urgência de políticas e ações concretas que promovam a inclusão e a equidade para as mulheres trans na sociedade. 


Promover um feminismo verdadeiramente interseccional é essencial para garantir que todas as mulheres sejam incluídas e que suas lutas sejam reconhecidas e valorizadas. Um feminismo que reconheça as diferentes experiências e identidades das mulheres e que busque eliminar todas as formas de discriminação e exclusão. 


Além disso, é fundamental conscientizar os homens sobre a importância de serem aliados na luta pela igualdade de gênero e pela inclusão das mulheres trans. Sua participação ativa na desconstrução de estereótipos, no combate ao machismo e na promoção de ambientes inclusivos é crucial para construir uma sociedade mais justa e igualitária para todas as pessoas, independentemente de sua identidade de gênero. 


Portanto, é urgente que continuemos o trabalho coletivo, homens e mulheres, para a superação dos desafios e a construção de um futuro em que todas as pessoas sejam respeitadas e tenham igualdade de oportunidades. Unindo a nossa intenção e ação podemos criar uma sociedade mais justa e inclusiva para todas as pessoas. 

 

Por Aline Frutuoso 


Bibliografia 

 

 


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