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  • Foto do escritorKaká Rodrigues

De Lélia Gonzalez à Feiurinha: o desaparecimento nosso de cada dia


Foto de Lélia Gonzalez

Das poucas memórias que eu guardo da minha infância, uma delas é a de que um dos meus passatempos favoritos era a leitura. Em certa altura, não me lembro exatamente quando, chegou às minhas mãos um conto de fadas no mínimo inusitado: era a história do desaparecimento de uma princesa, contada por Pedro Bandeira no livro O Fantástico Mistério de Feiurinha.



Digamos que esta história não é nada convencional. Ela vai além do "E viveram felizes para sempre" que estamos habituados a ver nos contos de fadas. Na história, Branca de Neve reuniu as outras princesas do reino, que também são suas cunhadas, pois todas se casaram com um Príncipe Encantado, para encontrar a princesa Feiurinha, que havia desaparecido. Nesta busca, resolveram ir atrás de um autor de histórias infantis para ver se ele sabia do paradeiro da princesa. Entre ciúmes, brigas e muita confusão, elas acabaram descobrindo que Feiurinha não tinha autor, não tinha história, nada, pois sua história não tinha sido escrita ainda - só transmitida oralmente. É preciso então que ela seja contada e escrita. É quando o leitor conhece, então, a história de Feiurinha.


A mobilização das princesas não se dá por acaso: elas percebem que, com o desaparecimento de uma delas, todas correm o risco de, em algum momento, desaparecer também. Então, elas se unem para resgatar, a partir do registro da história, a princesa desaparecida.


Muitos anos se passaram, até eu me envolver com o trabalho voluntário na busca por mais igualdade racial, e me deparar com Lélia Gonzalez. Lélia é a minha Feiurinha do mundo real. Nascida em Belo Horizonte em 01 de fevereiro de 1935, filha do ferroviário Accacio Joaquim de Almeida, e de Urcinda Serafim de Almeida, uma empregada doméstica indígena e analfabeta. Era a penúltima de 18 irmãos, entre eles o futebolista Jaime de Almeida, que jogou pelo Flamengo. O pai morreu quando ela ainda era criança.


Lélia mudou-se para o Rio de Janeiro em 1942. No início de sua vida no Rio, ela trabalhou como empregada doméstica e babá. Apesar das dificuldades, em 1954, Lélia concluiu os ensinos no Colégio Pedro II, tradicional instituição de ensino carioca. Graduou-se em História e Filosofia pela Universidade do Estado do Guanabara, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e trabalhou como professora da rede pública de ensino. Fez o mestrado em comunicação social.



No doutorado se especializou em antropologia política dedicando sua pesquisa em gênero e etnia. Começou então a se dedicar a pesquisas sobre relações de gênero e etnia. Foi professora de Cultura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde chefiou o departamento de Sociologia e Política.


Lélia é genial. Foi pioneira nos estudos sobre Cultura Negra no Brasil e co-fundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro (IPCN-RJ), do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Olodum. Em 1976, torna-se professora na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, convidada pelo diretor Rubens Gerchman, onde leciona o primeiro Curso de Cultura Negra do país.


Ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N'Zinga e o Olodum. Sua militância em defesa da mulher negra levou-a ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), no qual atuou de 1985 a 1989. Foi candidata a deputada federal pelo PT, não se elegendo, mas ficando como primeira suplente. Nas eleições seguintes, em 1986, candidatou-se a deputada estadual pelo PDT, novamente não se elegendo e ficando como suplente.



Seus estudos e publicações, permeados pelos cenários da ditadura política e da emergência dos movimentos sociais, identificam sua constante preocupação em articular as lutas mais amplas da sociedade com a demanda específica dos negros e, em especial, das mulheres negras.


Mesmo com toda essa genialidade, Lélia desaparece... eu nunca a vi em todos os meus anos de estudos acadêmicos, do fundamental ao mestrado. Nada sobre Lélia, nem uma nota de rodapé ou citação.


Em 2019, eu estava em um evento no Parque Ibirapuera para assistir uma palestra da Angela Davis, outra mulher negra pioneira nas discussões sobre a relação entre gênero, classe e raça no mundo. E todos os presentes ali, que a reverenciavam, ouviram o puxão de orelha de Davis:


“Por que vocês precisam buscar uma referência nos Estados Unidos? Eu aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês comigo.”
Angela Davis

Assim como o desaparecimento da Feiurinha preocupou à todas as princesas de todos os reinos encantados, o apagamento de Lélia Gonzalez deveria a preocupar a todos nós, brasileires que corremos o risco de sermos apagados junto com as nossas mulheres negras invisibilizadas pelo projeto estrutural de embranquecimento da população.


Sejamos todes Lélia.



Duas mulheres sorrindo.

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