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  • Foto do escritorRenata Torres

Ela só quer ser ouvida


Raiva. Revolta. Indignação. Compaixão. Perplexidade. Estes foram alguns dos sentimentos que experimentei ao me preparar para escrever este artigo. Um artigo que fala sobre o quanto que o machismo consegue suprimir da vida de uma mulher, até retirar dela a autonomia sobre o controle do seu próprio útero.


Década de 90. Surge mais uma mega star do pop. A típica princesinha norte-americana, representante do padrão de beleza cultuado pela mídia. Ela nem tinha 18 anos e seu nome era Britney Spears. O tamanho do seu sucesso meteórico era proporcional ao massacre que aquela adolescente recebia ao ser questionada pelo tamanho de seus seios do alto de seus 17 anos e da especulação a respeito de sua virgindade. Seu semblante surpreso com esses tipos de perguntas demonstravam o tamanho de seu desconforto com entrevistadores extremamente à vontade em colocá-la naquela posição. Um comportamento que hoje seria muito criticado e bem pouco autorizado.


Aceleramos para o ano de 2008. Britney já consolidada como uma das maiores estrelas da música pop, se casou, teve dois filhos e durante um processo conturbado de divórcio e passando por uma depressão pós-parto (segundo declarações de sua mãe) tem um surto momentâneo e ataca um dos vários paparazzi que a perseguem diariamente. Ela tinha 25 anos e não fazia ideia de que ali começaria um verdadeiro calvário, promovido por ninguém menos do que seu próprio pai.


Britney Spears hoje tem 39 anos e há 13 vive sob a curatela do pai. Isso significa que ela não tem autonomia para absolutamente nada em sua vida. Precisa de permissão para tudo, inclusive para retirar um DIU que foi colocado em seu útero, muito provavelmente sem sua permissão, para que seja impossibilitada de ter mais filhos. De acordo com a lei Maria da Penha “qualquer conduta que […] anule ou limite os direitos sexuais e reprodutivos” da mulher é uma forma de violência sexual. Portanto, de acordo com a lei brasileira Britney vem sendo constantemente abusada sexualmente. Os absurdos aos quais está submetida são inúmeros como mostra a reportagem do El País, feita a partir de um depoimento recente da artista à uma juíza da Califórnia, em que declara que não merece continuar vivendo do jeito que está. Ela quer sua vida de volta.


Uma pergunta que me vem à cabeça sempre que penso no caso da Britney é: será que se ela fosse um homem, teria sido submetida ao mesmo calvário? Penso em tantas estórias de artistas homens com problemas de saúde mental, abuso de drogas e comportamentos erráticos que não passaram nem perto de terem arrancados de si o direito de viverem suas vidas. Michael Jackson, Miles Davis, Robert Downey Jr, para citar alguns.


Mas aqui vemos o caso clássico de um sistema patriarcal e machista que a partir de um momento de fragilidade, ao qual qualquer pessoa está sujeita a passar em algum período desafiador de sua vida, permite que uma mulher seja silenciada e seu silêncio seja fonte de lucro e poder para os homens que estão à sua volta.


De acordo com os advogados envolvidos na análise do caso Britney Spears, a grande maioria das pessoas que está sob tutela tem demência ou idade avançada, ou ainda são declaradas incapazes, o que definitivamente não é o caso da Britney. Como explicar que durante os 13 anos da tutela ela tenha lançado quatro álbuns, feito duas turnês mundiais, somando 176 shows, e uma das residências de Las Vegas mais bem-sucedidas da história? Foi ainda jurada do programa de talentos The X Factor e fez aparições especiais em diversas séries de TV, como Jane the Virgin, em 2015, e How I Met Your Mother (apenas 1 mês depois de perder seus direitos).


No mais, fico com o impacto causado pelas declarações de Britney à juíza, demonstrando sua necessidade de ser ouvida, apenas ouvida:


Eu gostaria de ficar falando com você ao telefone para sempre, porque assim que desligar, de repente tudo o que ouvirei será ‘não, não e não’. Vão se organizar contra mim e me sentirei assediada e abandonada. E estou cansada de me sentir sozinha.


Por saúde mental, necessito que sua excelência me permita dar uma entrevista, que escutem o que ele tem feito comigo. Tenho o direito de usar minha voz... Sinceramente, preciso tirar isto do coração, a tristeza e tudo o que aconteceu


Quantas vezes nos deparamos com situações em que sentimos que não estamos sendo ouvidos? Ou situações em que não importa aquilo que façamos ou falemos, o resultado será sempre o mesmo: a desconsideração de nossas necessidades e nossas opiniões.

A escuta empática é uma ferramenta poderosa para gerar conexão e confiança, mas principalmente para nos dar a oportunidade de sermos agentes de transformação na vida das pessoas.


Ontem, dia 30 de junho, a juíza Brenda Penny negou um pedido de Britney feito em novembro de 2020 para remoção do seu pai como curador de seu espólio, avaliado em U$60 milhões. Essa decisão não está, no entanto, relacionada ao depoimento mais recente de Britney. Eu sinceramente espero que Britney seja de fato ouvida pela juíza Brenda Penny, e que ela ganhe de volta seu direito humano mais básico: o direito a viver sua vida. É tudo que ela está pedindo.


Se quiser conhecer na íntegra o depoimento de Britney é só clicar neste link.

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