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  • Foto do escritorRenata Torres

Quem é contra o inclusivismo é a favor do capacitismo


Imagem com duas jovens e um rapaz com síndrome de down trabalhando.

“Inclusivismo, que é o inclusivismo? A criança com deficiência era colocada dentro de uma sala de alunos sem deficiência. Ela não aprendia. Ela atrapalhava o aprendizado dos outros", disse o ministro da Educação, Milton Ribeiro, às vésperas do início do maior evento que promove a valorização das pessoas com deficiência e serve para demonstrar suas capacidades extraordinárias: as Paraolimpíadas de Tóquio.


Reparem o tempo verbal. ERA colocada dentro de uma sala de alunos sem deficiência, não APRENDIA, ela ATRAPALHAVA. O governo assume, através do Ministério da Educação que é contra o inclusivismo. Se é contra alguma coisa, é a favor de outra. Nesse caso, o Ministério da Educação assume que é a favor do capacitismo.


Mas como chegamos à essa conclusão? Para explicar, vamos analisar a definição do termo. De acordo com o Guia do Estudante, da Editora Abril, o capacitismo é o preconceito que tem como base a “capacidade” de outros seres humanos. Principalmente, quando se pensa na parcela da população que possui algum tipo de deficiência. Portanto, capacitismo é o preconceito contra pessoas com alguma deficiência.


Haverá aqueles que vão contemporizar e dizer que a fala do ministro tem algum sentido, já que ele destaca os desafios enfrentados pelas escolas e pelos professores em atender as necessidades das crianças portadoras de deficiência. De fato, a grande maioria das escolas da rede pública de ensino não está propriamente preparada para incluir todos os alunos e alunas. Mas será que ao invés de promover que a inclusão atrapalha, o governo não deveria estar preocupado em investir em políticas públicas e para tornar escolas e professores mais preparados para incluir todas as pessoas?

O Brasil é signatário da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência de 2007, que equivale à emenda constitucional. A Convenção reafirma

a universalidade, a indivisibilidade, a interdependência e a inter-relação de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, bem como a necessidade de garantir que todas as pessoas com deficiência os exerçam plenamente, sem discriminação

Criar espaços onde crianças, desde muito cedo, possam desenvolver a capacidade de respeitar e valorizar a diferença, e reconhecer que todas as pessoas possuem desafios e capacidades extraordinárias, é um dos pilares para a formação de uma sociedade com mais equidade, empatia e respeito.


Segundo os últimos dados divulgados pelo IBGE, o Brasil tem cerca de 45 milhões de pessoas que possuem algum tipo de deficiência. Isso equivale a quase 25% da população, um número muito expressivo. É preciso colocar foco no capacitismo, com a mesma intensidade que se fala de machismo, racismo, homofobia. No entanto, o tema não tem a mesma notoriedade e nem ganha o mesmo espaço na luta contra o preconceito.

Em 2021 completamos 30 anos da lei 8.213/91, que determina que empresas com mais de 100 funcionários tenham pelo menos 5% de pessoas com deficiência em seus quadros de colaboradores. Ainda assim, segundo a última Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), de 2019, há 486.756 PCDs trabalhando formalmente no país, o que representaria menos de 1% dos empregados.


Só este número já é um bom indicador de que mesmo com uma lei estabelecendo uma cota para contratação de PCDs, as empresas ainda têm um longo caminho pela frente para serem de fato um ambiente inclusivo para pessoas com deficiência.

Até porque vemos que muitas empresas ainda praticam a famosa vaga para PCD, restringindo a área de atuação dessas pessoas a posições específicas, na maioria das vezes sem contato direto com o cliente, fazendo trabalhos operacionais e de back-office.

No seu círculo de relacionamentos profissionais, quantas PCDs atuam como seus pares ou superiores? Quantas PCDs em nível executivo existem na empresa em que você trabalha? Será que nesse caso sua empresa está praticando contratação de diversidade ou inclusão?


A liderança que contrata, que desenvolve e que promove está aberta a receber pessoas com deficiência em seus times? Como desenvolver habilidades de liderança inclusiva quando o capacitismo restringe as oportunidades para PCD?

Como seria a realidade de pessoas com deficiência agora ou no futuro, se mais e mais escolas, públicas e privadas, investissem em inclusivismo e não em capacitismo?

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