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  • Foto do escritorKaká Rodrigues

Sobre liberdade: Para que precisamos de dias de visibilidade?



Foto de um braço com a bandeira do movimento trans na mão.

Há 57 anos, em 1° de abril de 1964, um golpe de estado cerceou a nossa liberdade, iniciando um período de repressão e violência. Mas o que ditadura e democracia têm a ver com dias de visibilidade? Vamos por partes... 


Primeiro, gostaria de falar um pouco sobre a cultura de cancelamento. A exclusão e o silenciamento do que (e de quem) nos contraria não é novidade no Brasil. Para o psicanalista Christian Dunker, isso faz parte do muro que se ergue para tornar invisível aquele que é muito diferente de mim


No artigo “Quem Tem Medo do Cancelamento”, escrito para a Revista Gama, Dunker explica que a prática punitiva do cancelamento se dá no ambiente digital e é capaz de destruir reputações e criar mecanismos de extorsão social, além de potencialmente reduzir a participação ativa de indivíduos em diálogos e debates. 


O cancelamento é um fenômeno contemporâneo passível de muitas análises sociais, culturais, discursivas e psicanalíticas. Mas é apenas uma nova roupagem digital para uma prática muito comum em uma sociedade hierarquizada pelo poder: a exclusão. 


De acordo com a teoria da constelação sistêmica, cada pessoa que nasce ou vincula-se a um sistema, deve ser reconhecida como membro integrante e respeitada neste sistema. Todos têm o direito de pertencer, ninguém deve ser excluído não importando suas características, sendo que, as exclusões sempre geram desequilíbrios no sistema. Quando acontece alguma exclusão de algum membro de um sistema familiar ou social, um dia, alguém, inconsciente, e por amor a esse que foi excluído, vai apresentar comportamentos para que essa pessoa excluída seja incluída no sistema. 


Enquanto não se olhar para isso, o desequilíbrio permanecerá no sistema. E os conflitos existirão. Esse sentimento de pertencimento é tão forte que, de acordo com Bert Hellinger “estamos dispostos a sacrificar e entregar nossa vida pela necessidade de pertencer.” E ainda, “devido a esse desejo de vínculo, estamos dispostos a ficar doentes e deficientes, morrer de forma estranha ou até mesmo tirar a própria vida, no lugar de outros membros de nosso sistema.” 


Infelizmente, ainda estamos longe de ter consciência sobre os impactos da exclusão no nosso sistema social. Vivemos em uma sociedade patriarcal, com uma definição clara do ser humano ideal como um homem branco, hétero, cis, alto, magro, rico, etc. Cada pessoa que se afasta desse ideal, passa a fazer parte de grupos sub representados que sofrem opressões diárias devido a essa estrutura. E muitos adoecem e até tiram a própria vida devido ao sofrimento emocional de não pertencer. 


Compreendido o impacto da exclusão em todas as pessoas, quero falar agora sobre uma data importante. Esta semana, no dia 31 de março, foi celebrado o Dia Internacional da Visibilidade Transgênero. A data é um evento anual dedicado a celebrar pessoas transgênero e aumentar a conscientização sobre a discriminação enfrentada por pessoas trans em todo o mundo, além de comemorar as suas contribuições para a sociedade. 


O dia foi criado pela ativista transgênero Rachel Crandall, de Michigan, EUA, em 2009 como uma reação à falta de reconhecimento LGBT das pessoas transgênero, citando a frustração de que o único dia conhecido era o Dia Internacional da Memória Transgênero, que lamenta os assassinatos de pessoas transgênero, mas não reconhece nem celebra os membros vivos desta comunidade. 


Pouco mais de 10 anos depois da criação da data, a população trans ainda sofre diversas violências diárias, entre elas a exclusão. Para acabar com essa injustiça, precisamos dar voz, rostos, contar as histórias e empoderar esta população tão marginalizada pela sociedade.  


Dar visibilidade significa reforçar a existência e respeitar os direitos dessa população. Para contribuir com essa mudança, eu e Renata Torres, da Diversidade Agora! convidamos Mikkel Mergener para contar um pouco da sua história, os desafios enfrentados por ser uma pessoa trans não-binária e também sobre as oportunidades que recebeu no mercado de trabalho. 


Agora que entendemos a importância dessa data, como criamos uma cultura mais inclusiva? Na Comunicação Não-Violenta, aprendemos que os rótulos e julgamentos são violentos e castradores da nossa humanidade porque a vida não é estática, é fluida e tudo muda o tempo todo no mundo, inclusive nós. A CNV nos ensina a focar a nossa comunicação nos nossos sentimentos e necessidades, que são o que temos de humanidade universalmente compartilhada. Ou você acredita que pessoas trans não sentem e não têm as mesmas necessidades que você? 


Existe uma tribo na África do Sul que possui um costume ancestral oposto à prática do cancelamento. Quando um integrante da tribo erra, se engana, prejudica alguém, é colocado no centro de uma roda na sua comunidade. Por dois dias, seus iguais o relembram tudo de bom que ele já fez. É um ritual regenerativo onde as pessoas da tribo dizem para ele Sawabona que significa: “eu respeito você, eu valorizo você, você é importante para mim”. E em resposta, o equivocado responde Shikoba, que significa “então, eu existo porque você me vê.” Nesse lugar de reconhecimento e aceitação mútua, o perdão acontece seguido da transformação. 


Somos seres sociais. Ser visto, valorizado e pertencer no sistema que nascemos e vivemos é condição básica para uma vida saudável. Nas palavras de Mikkel, “precisamos de mais empatia”. E eu gostaria de acrescentar que precisamos perder o medo do diferente. E que sim, precisamos de dias de visibilidade para que todes possam ser vistos e respeitados na sua individualidade. 


Gostaria de finalizar essa conversa com algumas sugestões de mudança de comportamento  

  1. Escolha viver sem preconceito de qualquer ordem. Todos têm direito a cumprir seu destino, por mais diferente que possa parecer. 

  1. Suspenda os seus julgamentos! Decida não julgar ou criticar, avaliar a situação como boa ou má. Será libertador. 

  1. Crie o hábito de não rotular coisas e pessoas, pois ao contrário limitará sua capacidade de ver com clareza o que acontece com o outro, e sobretudo com você. 

  1. Lembre-se de sua decisão de não julgar ou criticar. O silêncio amplia sua capacidade de perceber para mais além. 

  1. Aceite as diferenças como possibilidades para ampliar seu mundo. Essa prática irá lhe conduzir para um estado de unidade e força. 

  1. Perceba que como todo ser humano, você também possui singularidades que fazem parte. Aprenda a aceitar o diferente em você, porque aprenderá que você também necessita do outro. Observe que suas habilidades se fortalecerão se olhar para você com respeito e gentileza. 


E por fim, se você ainda não consegue compreender a importância pessoal para fazer esse esforço de mudança, pense no impacto sistêmico que a sua atitude pode gerar. E como a mudança coletiva pode impactar a sua vida. Afinal, você só será livre quando todos puderem ser.  


"As principais ameaças à ordem democrática brotam de ideologias baseadas na discriminação e exclusão: nacionalismo, racismo, machismo, xenofobia, homofobia, transfobia, fundamentalismo religioso e liberalismo econômico voltado apenas para a acumulação de lucros. Os esforços para defender e promover a democracia (dois passos que se sustentam mutuamente e precisam ser dados ao mesmo tempo) devem começar pelo combate a tais ideologias, cujas sementes proliferam dentro e fora de todas as sociedades. Aliás, não conhecem fronteiras. Todas as ideologias antidemocráticas estão associadas à ideologia da violência. Seus representantes jamais hesitam em declarar que a violência é necessária e legítima sempre que serve à consecução de seus fins. Portanto, a violência é uma ameaça constante à democracia e, assim, os esforços em defesa da democracia envolvem uma luta constante contra a violência." 

Jean-Marie Muller 



Foto Kaka Rodrigues e Renata Torres


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