top of page
  • Foto do escritorRenata Torres

Transformando o mundo começando por mim


O ano era 2006, eu já estava há 6 anos trabalhando como gerente de TI de uma das principais empresas de telefonia do Brasil. Durante esse tempo, vivi um período de muitos desafios, numa das indústrias mais dinâmicas do mercado – a telefonia móvel. Aprendi a ter agilidade, flexibilidade, foco no cliente e principalmente a montar times espetaculares. Mas, como boa sagitariana, lá veio o bichinho da inquietude me morder. Era hora de buscar algo novo.


Eram muitas as possibilidades e eu resolvi sair da empresa para pensar no que eu gostaria de fazer. Para desespero do meu pai, que ficou abismado com a notícia de que eu tinha pedido demissão sem ter um outro emprego em vista. Obviamente que ele não considerava o fato de que o mercado de TI era e, continua sendo, um dos mais aquecidos e que, na minha cabeça, sem emprego eu não ficaria. Mas eu não queria sair para buscar qualquer outra coisa. Ainda assim, reconheço o privilégio que foi poder tomar essa decisão.


Poucos meses depois, recebi o convite para entrar numa das maiores empresas de consultoria do mundo, empresa que eu já admirava e conhecia bem porque no meu emprego anterior eu era cliente deles. Entrar para uma consultoria me abria possibilidades infinitas, desde atuar em clientes de diferentes indústrias como poder escolher entre tantos assuntos bacanas relacionados à tecnologia, que sempre foi o meu foco.

Nesta consultoria, costumo dizer, que me graduei e pós-graduei como profissional e como liderança. Durante quase 15 anos atuei em diversas áreas, desde implementação de sistemas envolvendo diferentes tecnologias, passando por consultoria de negócios e programas de transformação digital. Tive a oportunidade de formar e liderar times de alta performance, dos quais me orgulho profundamente. Fui constantemente desafiada ao longo de minha carreira por lá. Cresci como pessoa e como profissional. Mas então por que mudar?


A mudança sempre esteve presente na minha vida. Já me construí, desconstruí e reconstruí diversas vezes, pelos mais diferentes motivos. Se eu parar para pensar bem, mesmo durante os anos que estive na consultoria, foram tantas as áreas, os papéis, as responsabilidades diferentes, que posso afirmar que foram anos de constantes mudanças. Mas durante os últimos 5 anos eu vivi uma mudança diferente. Uma mudança que me transformou profundamente e permitiu que eu também impactasse a vida de muitas pessoas.


Foi em 2015 que eu fui promovida a Managing Director na Accenture. O ápice da carreira executiva dentro da firma. Muitos querem, alguns chegam. Cheguei. Fui a primeira mulher a ser promovida como Diretora da Accenture Digital no Brasil. E me incomodei com algo que ainda não tinha sido uma questão para mim: o fato de ser a única mulher com um cargo de diretoria naquela área. Até então eu já tinha passado por diversas situações em que era a única mulher do projeto, ou em uma reunião, mas estar em uma posição de alta liderança é diferente.


De repente a ficha caiu como um raio na minha cabeça: por que não tinham outras mulheres ocupando aquela cadeira antes de mim? Quantas mulheres tínhamos no pipeline para as promoções dos próximos anos? Quais eram as dificuldades que as mulheres do departamento enfrentavam? Eu não tinha as respostas. Mas comecei a buscar por elas. Senti que tinha a responsabilidade de me aprofundar no tema. Entender o que causava isso, e mais importante, o que eu poderia fazer para, pelo menos onde estivesse ao meu alcance, ajudar a começar a mudar essa realidade.


Reuni um grupo de mulheres mais próximas e desenhamos um programa de liderança feminina, onde a primeira ação foi escutar as mulheres da área. Todas, independente de experiência e de cargo. Fomos buscar saber o que não estava funcionando para tentarmos começar a mudar a realidade delas. Foi impressionante tomar consciência de tantas situações desafiadores pelas quais nós mulheres passamos dentro do mercado corporativo. Dar voz a grupos sub-representados dentro da organização é o primeiro passo para começar a resolver os problemas causados por preconceito e uma cultura não inclusiva. Ter uma liderança que apoia essa agenda também é essencial. Desde o início eu tive esse apoio e a liberdade para propor ações para começar uma mudança significativa naquele time, onde eu conseguia atuar.


Ao longo dos 3 anos seguintes colecionamos realizações dentro da agenda de Diversidade, Equidade e Inclusão dos times dos quais eu tive o prazer de liderar. Dobramos o número de mulheres em um time extremamente técnico e especializado, conseguimos montar comitês de etnia e lgbtqia+ para expandir a discussão para outros grupos e de forma bem factual, a partir do aumento de diversidade do time, passamos a produzir soluções bem mais inovadoras e criativas. Tendo algumas dessas soluções ganhado reconhecimento global da organização, em premiação de inovação.

E nesse processo, fui eu que mudei.

Quando percebi, já estava palestrando sobre o tema, me inscrevendo em diversas formações de autoconhecimento, indo para Harvard para me aprofundar em estratégias de diversidade para corporações, criando um treinamento de liderança que revolucionou a vida de várias mulheres dentro da empresa (segundo depoimento das próprias), tentando sensibilizar outros líderes sobre a importância de termos times diversos e inclusivos se queremos continuar inovando e proporcionando ambientes favoráveis ao desenvolvimento de pessoas. Com isso encontrei aquilo que eu quero fazer daqui em diante: colaborar com as empresas para que seus líderes sejam mais conscientes do impacto que têm sobre as pessoas de seus times e para que sejam ambientes seguros para todos poderem ser quem são.


No momento que eu tomei consciência de que esse propósito era muito maior do que eu tinha como plano até então, eu decidi mudar de rota. E assim foi. Levei 2 anos para tomar essa decisão de fato. Uma das decisões mais desafiadoras da minha vida. O ano de 2020 foi decisivo para acelerar essa decisão. Um ano complicado e diferente de tudo que já vivemos. Mas ao mesmo tempo necessário para colocar em perspectiva que o que realmente importa é buscarmos aquilo que nos traz felicidade.


Estamos vivendo muitas mudanças na forma das pessoas trabalharem e se relacionarem, mudanças que vieram para ficar. Mudanças na esfera social também precisam ser feitas para que o machismo, o racismo, a homofobia, o etarismo, o capacitismo e qualquer tipo de preconceito não seja mais tolerado, em qualquer ambiente. Mudanças necessárias, em um mundo que nunca mais será o mesmo. Só vou saber se foi uma decisão acertada daqui a algum tempo. Mas nesse momento eu só consigo achar que a vida é muito curta para ficar pensando no que poderia ter sido.

bottom of page