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  • Foto do escritorKaká Rodrigues

Você está vivendo uma relação abusiva com o seu chefe e não sabe?



Bem no início da minha carreira no mercado financeiro, eu tive a oportunidade de migrar do atendimento em agência varejo (de rua) para um escritório de negócios corporate. Me mudei da minha cidade na Baixada Santista para São Paulo e lá fui na minha aventura em busca do pote de ouro no final do arco-íris (quer dizer, da Avenida Paulista).


Os primeiros meses foram uma grande lua de mel. Novas pessoas, novos aprendizados, um escritório moderno, tudo era novo, bonito, atraente e agradável naquela experiência. A minha equipe era composta por 9 pessoas: um gerentão, 4 gerentinhos e 4 assistentes. Eu fazia parte do grupo de assistentes.


Passado algum tempo, não me recordo exatamente quanto, uma das gerentinhas (a que havia me selecionado para a função), parou de falar comigo. Eu nunca soube exatamente o que havia acontecido, mas foram meses de um silêncio ensurdecedor.


Esse “gelo” que era unicamente direcionado a mim, foi ignorado pelos demais colegas e pela empresa. E eu, vi o meu sonho encantado do trabalho na Big Apple tupiniquim virar um inferno. Na época, completamente alheia aos meus direitos e sem saber que estava sofrendo assédio moral, fui parar na terapia e me virei sozinha para superar a dor da exclusão.


De acordo com a cartilha sobre assédio moral do Tribunal Superior do Trabalho, o assédio moral é a exposição de pessoas a situações humilhantes e constrangedoras no ambiente de trabalho, de forma repetitiva e prolongada, no exercício de suas atividades. É uma conduta que traz danos à dignidade e à integridade do indivíduo, colocando a saúde em risco e prejudicando o ambiente de trabalho.


O assédio moral é toda e qualquer conduta abusiva, manifestando-se por comportamentos, palavras, atos, gestos ou escritos que possam trazer danos à personalidade, à dignidade ou à integridade física e psíquica de uma pessoa, pondo em perigo o seu emprego ou degradando o ambiente de trabalho.
Marie-France Hirigoyen, psiquiatra e psicanalista

É uma forma de violência que tem como objetivo desestabilizar emocional e profissionalmente o indivíduo e pode ocorrer por meio de ações diretas (acusações, insultos, gritos, humilhações públicas) e indiretas (propagação de boatos, isolamento, recusa na comunicação, fofocas e exclusão social).


O ambiente de trabalho tem se transformado em arena insalubre e perigosa, o que o torna digno de receber da Organização Mundial do Trabalho atenção especial e ser classificado como crescentemente violento.
Ester, Heloani e Margarida, 2007

A humilhação repetitiva e de longa duração interfere na vida do profissional, comprometendo a identidade, a dignidade e as relações afetivas e sociais e gerando danos à saúde física e mental, que podem evoluir para a incapacidade de trabalhar, para o desemprego ou mesmo para a morte.


Essas condutas são incompatíveis com a Constituição da República e com diversas leis que tratam da dignidade da pessoa humana e do valor social do trabalho. Por isso, devem ser combatidas!


O assédio moral ainda pode ser classificado como interpessoal (como no meu caso, direcionado a uma pessoa), institucional (quando a organização incentiva ou tolera atos de assédio), vertical descendente (do chefe para o subordinado) e ascendente (do subordinado para o chefe) e ainda horizontal (entre pares).


Eu estava vivendo uma relação abusiva e não sabia. Mas, como identificar se você está em uma sofrendo assédio moral no trabalho? Aqui estão alguns exemplos de atitudes que caracterizam o assédio:


- Retirar a autonomia do colaborador ou contestar, a todo o momento, suas decisões;


- Sobrecarregar o colaborador com novas tarefas ou retirar o trabalho que habitualmente competia a ele executar, provocando a sensação de inutilidade e de incompetência;


-Ignorar a presença do assediado, dirigindo-se apenas aos demais colaboradores;


- Passar tarefas humilhantes;


-Gritar ou falar de forma desrespeitosa;


- Espalhar rumores ou divulgar boatos ofensivos a respeito do colaborador;


-Não levar em conta seus problemas de saúde;


-Criticar a vida particular da vítima;


-Atribuir apelidos pejorativos;


-Impor punições vexatórias (dancinhas, prendas);


- Postar mensagens depreciativas em grupos nas redes sociais;


- Evitar a comunicação direta, dirigindo-se à vítima apenas por e-mail, bilhetes ou terceiros e outras formas de comunicação indireta;


-Isolar fisicamente o colaborador para que não haja comunicação com os demais colegas;


- Desconsiderar ou ironizar, injustificadamente, as opiniões da vítima;


-Retirar cargos e funções sem motivo justo;


-Impor condições e regras de trabalho personalizadas, diferentes das que são cobradas dos outros profissionais;


-Delegar tarefas impossíveis de serem cumpridas ou determinar prazos incompatíveis para finalização de um trabalho;


- Manipular informações, deixando de repassá-las com a devida antecedência necessária para que o colaborador realize suas atividades;


- Vigilância excessiva;


- Limitar o número de vezes que o colaborador vai ao banheiro e monitorar o tempo que lá ele permanece;


-Advertir arbitrariamente; e


- Instigar o controle de um colaborador por outro, criando um controle fora do contexto da


estrutura hierárquica, para gerar desconfiança e evitar a solidariedade entre colegas.


Ah, algo importante! Para que a conduta seja considerada assédio ela precisa ser repetitiva. Situações isoladas podem causar dano moral, mas não necessariamente configuram assédio moral. Para que o assédio seja caracterizado, as agressões devem ocorrer repetidamente, por tempo prolongado, e com a intenção de prejudicar emocionalmente a vítima.


São inúmeras as consequências do assédio para o indivíduo (do estresse ao suicídio), para a empresa (queda de produtividade, absenteísmo, indenizações trabalhistas, entre outras) e para a sociedade (custos com tratamentos médicos, despesas com benefícios sociais custos com processos administrativos e judiciais).


Por outro lado, quando a organização investe em um ambiente de segurança psicológica, todo mundo ganha. Em um ambiente psicologicamente seguro, os colaboradores se manifestam, compartilham suas opiniões e ideias abertamente, assumem riscos, admitem falhas, aprendem com as falhas e têm discussões honestas e abertas. Além disso, a segurança psicológica é um fator associado ao sucesso de um negócio.


O assédio é uma doença social e, como toda doença, é melhor prevenir do que remediar. E a principal forma de prevenção é a informação. Garantir que todos saibam o que é assédio moral e quais são os comportamentos e ações aceitáveis no ambiente de trabalho contribui para a redução e até para a eliminação dessa prática. Além disso, criar mecanismos que suportem uma cultura psicologicamente segura é responsabilidade de organizações que respeitam e valorizam os seus colaboradores.


Se você ocupa uma posição de liderança, que compromisso tem assumido com a sua equipe para a promoção de confiança e respeito nas suas relações? Se ainda não está em uma posição de liderança, informe-se sobre os seus direitos e fique atento à sinais de estresse, ansiedade e depressão. Peça ajuda. Não espere adoecer para fazer algo. A sua vida e saúde vêm em primeiro lugar.


"Ninguém pode fazer com que você se sinta inferior sem o seu consentimento."


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